Cara amiga Margarida,
Espero que esta carta a vá encontrar de plena saúde. Já não
comunicávamos há algum tempo.
Escrevo-lhe, também, porque me sinto angustiado com toda
esta situação política que o nosso país (e o mundo) atravessa, pois sinto-me
muito preocupado com os sucessivos ataques de sucessão que têm vindo a lume nas
notícias.
Longe vão os tempos das guerras internas que descrevi em “A
curva da estrada”. Aliás, fiquei muito feliz por saber que esta minha obra foi
objeto de análise no último clube de leitura, promovido pela Biblioteca
Municipal de Oliveira de Azeméis, minha terra natal.
Mas sinto que já não faz sentido as guerras entre partidos:
já não há “curvas” na estrada: só linhas retas onde se avança sem medo de
abalroar os outros, tamanha é a velocidade dos acontecimentos. Certamente, me
dirá, cara Margarida, que as grandes conquistas se fizeram quando não se olhou
para as “curvas”.
Não sei se é porque ambos sabemos que até nas mais pequenas frinchas
pode passar a aranha mais venenosa, urdindo pela calada e no silencio a sua
teia mortal até à ferrada final; não sei se porque nos deixamos consumir pelo
imediatismo e fácil… O certo é que há um tique-taque universal que nos impele e
conduz como arado de ossos, inevitavelmente, para o fim, sem que nos
apercebamos do quão rápido o tempo passa e efémera é a vida.
Despeço-me com apreço, não porque não gostasse de continuar
a nossa conversa, mas porque tenho de ir ver o forno, que de pré-aquecido, já
está em condições de assar uma bela de uma galinha, morta por pessoas menos
insensíveis do que eu.
Com afeto,
F.C.

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