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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cartas a Margarida

 

Querida amiga Margarida

 

Estou siderado. Acompanhei com grande satisfação, entusiasmo e esperança no futuro, a viagem espacial dos três grandes conquistadores, a bordo da Artemis II.

Numa época em que se duvida de tudo, que se questiona a manipulação, a veracidade dos factos e se analisa detalhadamente as teorias da conspiração, sinto-me capaz de afirmar que o grande passo da humanidade, foi, de facto, dado. Fruto da maior doença já alguma vez registada, este planeta está doente, sofrendo com o vírus humano e as consequências dos seus atos.

Nesta casa tão bonita, repleta de mistérios e recursos, o homem conseguiu esgotá-los. Mais, consegue guerrear pelo pouco que ainda existe na tentativa prepotente da dominância, em vez de irmãmente encontrar soluções que pudessem evitar a debandada dos poderosos rumo às estrelas, onde tenho plena certeza, cometerão os mesmos erros até à nova extinção.

Nos, querida amiga, os não-poderosos deste universo, somos compelidos a viver com as más decisões dos outros, com a prepotência exacerbada e com o opróbrio, como lixo carbónico descartável, manchado, machucado, amarfanhado, pelas vontades alheias.

Se é para dar novos rumos ao Mundo, que seja! … e quem vier atrás que tente fechar esta porta escancarada para a desumanidade, esperando um bem maior que o seu próprio.

Com afeto,

J.M.

 

PS: Artemis – deusa grega da Lua, da caça, da natureza selvagem, castidade e parto. Protetora da vida dos animais selvagem. Conhecida, também, por punir severamente quem desrespeita as suas regras. O quão irónico e profético isto lhe parece, querida amiga?!!!

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cartas a Margarida


 

Cara amiga Margarida,

Espero que esta carta a vá encontrar de plena saúde. Já não comunicávamos há algum tempo.

Escrevo-lhe, também, porque me sinto angustiado com toda esta situação política que o nosso país (e o mundo) atravessa, pois sinto-me muito preocupado com os sucessivos ataques de sucessão que têm vindo a lume nas notícias.

Longe vão os tempos das guerras internas que descrevi em “A curva da estrada”. Aliás, fiquei muito feliz por saber que esta minha obra foi objeto de análise no último clube de leitura, promovido pela Biblioteca Municipal de Oliveira de Azeméis, minha terra natal.

Mas sinto que já não faz sentido as guerras entre partidos: já não há “curvas” na estrada: só linhas retas onde se avança sem medo de abalroar os outros, tamanha é a velocidade dos acontecimentos. Certamente, me dirá, cara Margarida, que as grandes conquistas se fizeram quando não se olhou para as “curvas”.

Não sei se é porque ambos sabemos que até nas mais pequenas frinchas pode passar a aranha mais venenosa, urdindo pela calada e no silencio a sua teia mortal até à ferrada final; não sei se porque nos deixamos consumir pelo imediatismo e fácil… O certo é que há um tique-taque universal que nos impele e conduz como arado de ossos, inevitavelmente, para o fim, sem que nos apercebamos do quão rápido o tempo passa e efémera é a vida.

Despeço-me com apreço, não porque não gostasse de continuar a nossa conversa, mas porque tenho de ir ver o forno, que de pré-aquecido, já está em condições de assar uma bela de uma galinha, morta por pessoas menos insensíveis do que eu.

Com afeto,

 

F.C.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Cartas a Margarida


 

Querida amiga Margarida,

Espero que esta carta a vá encontrar bem de saúde.

Escrevo, talvez, a minha última carta deste ano de 2025, onde tanta coisa aconteceu em Portugal e no mundo. Escrevo-lhe já em época natalícia e é com esta época no pensamento que recordo o meu Natal na casa que me viu partir como garoto, para me receber, depois, como homem. Recordo os Natais passados, daquela altura em que tudo — mesmo o mais insignificante dos silêncios — estava e fazia-se sentir para além da pele. O Natal estava no parco repasto, no frágil aquecimento e no negrume agreste do frio cortante do vale encantado de Ossela.

Agora que penso nisso, pergunto-me que sabor havia nas batatas da ceia, criadas na terra e colhidas com o suor da labuta, regadas com as lágrimas de quem sonhava partir para ganhar um pão menos duro. Era um sabor feito de esforço e de partilha, porque até o pouco dividido entre todos se tornava festa. Hoje, quando o fiel amigo com todos chega à mesa sinto comigo esse gosto antigo e percebo que a pobreza tinha outra generosidade: sabia oferecer presença.

Esses pequenos rituais, feitos de coisas simples, eram sinais de cuidado: um gesto sincero de quem quis dar, sem esperar nada que não fosse a alegria do outro. E então o Natal, por mais pobre que fosse em objetos, tornava-se rico em significados.

Hoje tudo se transformou... Quando fecho os olhos, ainda vejo o presépio musguento, o barro das figuras paternais lascado pelo uso, a meia rota pendurada onde, num tempo, a barrita de chocolate cabia com um sorriso tímido. São as caixas embrulhadas que agora se amontoam sob árvores cheias de luzes — presentes comprados com pressa e dispostos com ritual quase industrial. Aguarda-se um mês inteiro para a abertura, e muitas vezes a surpresa foi trocada por listas e encomendas. Parece que a pressa e a abundância fizeram-nos perder a delicadeza do tempo de antes: o tempo de conversar, de ouvir uma história ao pé da lareira, de sentir a casa respirar connosco.

Querida amiga Margarida, partilho uma inquietação nova que nos obriga a pensar: quantas raízes foram arrancadas quando as aldeias ficaram mais vazias? Quantas memórias se perderam quando os mais novos partiram em busca de oportunidades? Quantas novidades chegaram com quem voltou — ou com quem ficou e reinventou a sua vida aqui? E as casas cada vez maiores estão cada vez mais vazias… Num tempo em que se fala tanto em eficiência, tecnologia e números, a verdadeira riqueza continua a ser o gesto que aquece outro corpo humano.

Vivemos tempos de certezas instáveis e de notícias que chegam com força pelo telemóvel. As crises e as mudanças climáticas, a migração, as novas tecnologias; tudo isso muda a paisagem e as formas de viver. Urge reencontrar o sentido do coletivo, a confiança nos vizinhos, o cuidado com a natureza que nos sustenta. aprendemos, por vezes à custa de perdas, que não há futuro social sem memória partilhada e sem comunidades que cuidem umas das outras.

Por isso, este Natal, proponho que voltemos a pequenas práticas: escrever uma carta a um amigo, ajudar num projeto comunitário, levar uma refeição a quem está sozinho. Talvez sejam gestos modestos, mas sei que, nas minhas recordações do vale de Ossela, é que  encontro forças para acreditar que ainda vamos a tempo de olhar para o lado se houver vontade humana de o fazer.

Termino desejando-lhe um Natal sereno, pleno de pequenos encontros e de palavras ditas com carinho. Que a casa que a viu crescer receba calor e risos, e que no novo ano encontremos mais motivos para sorrir, e novas forças para construir pontes de entendimento entre nações.

Com amizade e saudade,

JMFC