segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Cartas a Margarida


 

Querida amiga Margarida,

Espero que esta carta a vá encontrar bem de saúde.

Escrevo, talvez, a minha última carta deste ano de 2025, onde tanta coisa aconteceu em Portugal e no mundo. Escrevo-lhe já em época natalícia e é com esta época no pensamento que recordo o meu Natal na casa que me viu partir como garoto, para me receber, depois, como homem. Recordo os Natais passados, daquela altura em que tudo — mesmo o mais insignificante dos silêncios — estava e fazia-se sentir para além da pele. O Natal estava no parco repasto, no frágil aquecimento e no negrume agreste do frio cortante do vale encantado de Ossela.

Agora que penso nisso, pergunto-me que sabor havia nas batatas da ceia, criadas na terra e colhidas com o suor da labuta, regadas com as lágrimas de quem sonhava partir para ganhar um pão menos duro. Era um sabor feito de esforço e de partilha, porque até o pouco dividido entre todos se tornava festa. Hoje, quando o fiel amigo com todos chega à mesa sinto comigo esse gosto antigo e percebo que a pobreza tinha outra generosidade: sabia oferecer presença.

Esses pequenos rituais, feitos de coisas simples, eram sinais de cuidado: um gesto sincero de quem quis dar, sem esperar nada que não fosse a alegria do outro. E então o Natal, por mais pobre que fosse em objetos, tornava-se rico em significados.

Hoje tudo se transformou... Quando fecho os olhos, ainda vejo o presépio musguento, o barro das figuras paternais lascado pelo uso, a meia rota pendurada onde, num tempo, a barrita de chocolate cabia com um sorriso tímido. São as caixas embrulhadas que agora se amontoam sob árvores cheias de luzes — presentes comprados com pressa e dispostos com ritual quase industrial. Aguarda-se um mês inteiro para a abertura, e muitas vezes a surpresa foi trocada por listas e encomendas. Parece que a pressa e a abundância fizeram-nos perder a delicadeza do tempo de antes: o tempo de conversar, de ouvir uma história ao pé da lareira, de sentir a casa respirar connosco.

Querida amiga Margarida, partilho uma inquietação nova que nos obriga a pensar: quantas raízes foram arrancadas quando as aldeias ficaram mais vazias? Quantas memórias se perderam quando os mais novos partiram em busca de oportunidades? Quantas novidades chegaram com quem voltou — ou com quem ficou e reinventou a sua vida aqui? E as casas cada vez maiores estão cada vez mais vazias… Num tempo em que se fala tanto em eficiência, tecnologia e números, a verdadeira riqueza continua a ser o gesto que aquece outro corpo humano.

Vivemos tempos de certezas instáveis e de notícias que chegam com força pelo telemóvel. As crises e as mudanças climáticas, a migração, as novas tecnologias; tudo isso muda a paisagem e as formas de viver. Urge reencontrar o sentido do coletivo, a confiança nos vizinhos, o cuidado com a natureza que nos sustenta. aprendemos, por vezes à custa de perdas, que não há futuro social sem memória partilhada e sem comunidades que cuidem umas das outras.

Por isso, este Natal, proponho que voltemos a pequenas práticas: escrever uma carta a um amigo, ajudar num projeto comunitário, levar uma refeição a quem está sozinho. Talvez sejam gestos modestos, mas sei que, nas minhas recordações do vale de Ossela, é que  encontro forças para acreditar que ainda vamos a tempo de olhar para o lado se houver vontade humana de o fazer.

Termino desejando-lhe um Natal sereno, pleno de pequenos encontros e de palavras ditas com carinho. Que a casa que a viu crescer receba calor e risos, e que no novo ano encontremos mais motivos para sorrir, e novas forças para construir pontes de entendimento entre nações.

Com amizade e saudade,

JMFC