Querida amiga Margarida,
Espero que esta carta a vá
encontrar bem de saúde.
Escrevo, talvez, a minha última
carta deste ano de 2025, onde tanta coisa aconteceu em Portugal e no mundo.
Escrevo-lhe já em época natalícia e é com esta época no pensamento que recordo
o meu Natal na casa que me viu partir como garoto, para me receber, depois,
como homem. Recordo os Natais passados, daquela altura em que tudo — mesmo o
mais insignificante dos silêncios — estava e fazia-se sentir para além da pele.
O Natal estava no parco repasto, no frágil aquecimento e no negrume agreste do
frio cortante do vale encantado de Ossela.
Agora que penso nisso,
pergunto-me que sabor havia nas batatas da ceia, criadas na terra e colhidas
com o suor da labuta, regadas com as lágrimas de quem sonhava partir para
ganhar um pão menos duro. Era um sabor feito de esforço e de partilha, porque
até o pouco dividido entre todos se tornava festa. Hoje, quando o fiel amigo
com todos chega à mesa sinto comigo esse gosto antigo e percebo que a pobreza
tinha outra generosidade: sabia oferecer presença.
Esses pequenos rituais, feitos de
coisas simples, eram sinais de cuidado: um gesto sincero de quem quis dar, sem
esperar nada que não fosse a alegria do outro. E então o Natal, por mais pobre
que fosse em objetos, tornava-se rico em significados.
Querida amiga Margarida, partilho
uma inquietação nova que nos obriga a pensar: quantas raízes foram arrancadas
quando as aldeias ficaram mais vazias? Quantas memórias se perderam quando os
mais novos partiram em busca de oportunidades? Quantas novidades chegaram com
quem voltou — ou com quem ficou e reinventou a sua vida aqui? E as casas cada
vez maiores estão cada vez mais vazias… Num tempo em que se fala tanto em
eficiência, tecnologia e números, a verdadeira riqueza continua a ser o gesto
que aquece outro corpo humano.
Vivemos tempos de certezas
instáveis e de notícias que chegam com força pelo telemóvel. As crises e as
mudanças climáticas, a migração, as novas tecnologias; tudo isso muda a
paisagem e as formas de viver. Urge reencontrar o sentido do coletivo, a
confiança nos vizinhos, o cuidado com a natureza que nos sustenta. aprendemos,
por vezes à custa de perdas, que não há futuro social sem memória partilhada e
sem comunidades que cuidem umas das outras.
Por isso, este Natal, proponho
que voltemos a pequenas práticas: escrever uma carta a um amigo, ajudar num
projeto comunitário, levar uma refeição a quem está sozinho. Talvez sejam
gestos modestos, mas sei que, nas minhas recordações do vale de Ossela, é que encontro forças para acreditar que ainda vamos
a tempo de olhar para o lado se houver vontade humana de o fazer.
Termino desejando-lhe um Natal
sereno, pleno de pequenos encontros e de palavras ditas com carinho. Que a casa
que a viu crescer receba calor e risos, e que no novo ano encontremos mais motivos
para sorrir, e novas forças para construir pontes de entendimento entre nações.
Com amizade e saudade,
JMFC
