quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cartas a Margarida

 

Querida amiga Margarida

 

Estou siderado. Acompanhei com grande satisfação, entusiasmo e esperança no futuro, a viagem espacial dos três grandes conquistadores, a bordo da Artemis II.

Numa época em que se duvida de tudo, que se questiona a manipulação, a veracidade dos factos e se analisa detalhadamente as teorias da conspiração, sinto-me capaz de afirmar que o grande passo da humanidade, foi, de facto, dado. Fruto da maior doença já alguma vez registada, este planeta está doente, sofrendo com o vírus humano e as consequências dos seus atos.

Nesta casa tão bonita, repleta de mistérios e recursos, o homem conseguiu esgotá-los. Mais, consegue guerrear pelo pouco que ainda existe na tentativa prepotente da dominância, em vez de irmãmente encontrar soluções que pudessem evitar a debandada dos poderosos rumo às estrelas, onde tenho plena certeza, cometerão os mesmos erros até à nova extinção.

Nos, querida amiga, os não-poderosos deste universo, somos compelidos a viver com as más decisões dos outros, com a prepotência exacerbada e com o opróbrio, como lixo carbónico descartável, manchado, machucado, amarfanhado, pelas vontades alheias.

Se é para dar novos rumos ao Mundo, que seja! … e quem vier atrás que tente fechar esta porta escancarada para a desumanidade, esperando um bem maior que o seu próprio.

Com afeto,

J.M.

 

PS: Artemis – deusa grega da Lua, da caça, da natureza selvagem, castidade e parto. Protetora da vida dos animais selvagem. Conhecida, também, por punir severamente quem desrespeita as suas regras. O quão irónico e profético isto lhe parece, querida amiga?!!!

domingo, 8 de março de 2026

Dia Internacional da Mulher

 MULHER


A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são


A posse vai-se acabar

no tempo da liberdade

O que importa é saber estar

Juntos em pé de igualdade


Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Do ontem, ao hoje e quem sabe ao amanhã

 "Um dia o meu filho passou um risco nos olhos e pintou as suas unhas.

Perguntei-lhe: "Onde vais assim? Porque pintaste os olhos?"

Respondeu-me. "Achei que ficava bem!

De facto, ficava-lhe bem. 

Anui.

Num outro dia, o meu filho apareceu com os olhos e unhas pintados, e um fato-saia vestido.

Perguntei-lhe: "Tens a certeza de que queres ir assim vestido"?

Respondeu: "Sim. Sinto-me bem com este outfit".

Anui.

Passados uns tempos, o meu filho apareceu com os olhos e unhas pintados, um fato-saia vestido e uns saltos estilletto calçados.

Perguntei-lhe: "Como vais fazer, se vais estar toda a noite nesses saltos"?

Respondeu-me: "Não te preocupes. Estes sapatos da marca XYXDT e são super confortáveis".

Olhei para ele: sapatos super lindos, e a combinar tops com a roupa. Que lindo que estava!

Anui.

Uns tempos mais tarde, o meu filho apareceu com os olhos e unhas pintados, de barba por fazer há 3 dias, um fato-saia vestido, uns sapatos trendy stilletto, carteira ao ombro a combinar e o cabelo d'oiro cortado de forma invulgar com farrepas a cairem-lhe nos olhos e restante rosto.

Perguntei-lhe: "Tens noção de como te vais apresentar perante os outros"?

Respondeu-me: "Sim. Sinto-me  preparado para chocar os que não me quiserem ver como eu sou".

Perguntei-lhe - " E isso traduz-se em quê"?

Respondeu-me: -"Estou preparado para chocar o mundo, apelar à minha individualidade anti-sistema, fazer ouvir através da minha imagem, o meu ser diferente; veicular pela minha aparência um grito de revolta escondido; ser exemplo de igualdade a todos os que ainda não deram a volta a seus pais e demais familiares".

Respondi: - "E onde vais, tu, fazer isso?"

- "Na televisão." - respondeu.

Onde mais?! . Era de facto o lugar ideal para empregarem o meu filho. " disse-me.

Anui.

Poucos dias depois, o meu filho apareceu morto num beco com a inscrição: "Isto não é a República das Bananas".


Nota: há uma certa hipertextualidade com o conto de Gonçalo M Tavares, in: O bairro do sr. Brescht



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Recomeços

 Um amigo; um grande amigo, perguntou-me há dias " e tu como estás? ainda escreves no teu blogue?!" e eu respondi: "Não. Ainda o tenho mas deixei".

A pergunta ficou-me na cabeça. Tenho escrito para tantas outras coisas e ocasiões, porque não ir buscar o "fases-ao-acaso" ?!!!!

E aqui estou eu, entre quatro paredes, com o universo a parecer desabar de tanta chuva, vento e trovoada, com os vizinhos e gritar no andar de cima (o que já não é novo, pois há coisas que nunca mudam) como se vivessem no meio de 7ha, numa quinta longe. 

E só porque sim, e também porque a resposta que dei ao meu amigo me assola como febre em dia de não ir ao médico, resolvi pegar no computador, pesquisar o endereço que o Alzheimer ainda me deixa recordar e escrever sobre; "100 cães a um osso" ou vulgarmente dito "100 cães ao osso".

Hoje, o meu pensamento /escrita vai para todos aqueles que sofrem a ignomínia da
ostracização 

 Como cães a um osso, é como sinto que a vida se transformou, sobretudo depois do Covid-19.

Muitos irão dizer (após lerem este meu post) que a frase é antiga e que pode estar descontextualizada, já que há muito que deixou de ser usada, logo está em desuso.

Porém, em minha defesa, acho que a expressão não podia, nem pode, ser relegada para 2º plano, para um plano de inexistência. São mais do que 100 (cem). Bem mais: São um conjunto enorme, para o qual "alcateia" (tal a ferocidade com que atacam) já não chega para designar.

E julgam-se no direito de, só porque caçam em matilha, poder atacar, desventrar tudo e todos que lhe se lhes cruzam pelo caminho. Eles juntam-se em magotes, ávidos de sangue; eles perseguem silenciosamente as suas presas; eles despedaçam sem rancor, remorso ou sentido de humanidade (coisa que de facto não é da natureza feroz dos canídeos).

já vi cães muito mais humanos do que humanos, humanos???!! bem... muito mais ferozes do que cães.

E tudo reside no "osso" que lhe dão(?), prometem. E por esse osso, são capazes de tudo, esquecendo que o osso prometido, pode estar podre, envenenado ou cru.

Mas Eles vão... o cheiro da fartura, do obséquio, ou da grupeta, não os demove, independentemente do qué, ou de  quem precisam pisar, arreganhar a dentuça ou até matar.

Porque tudo depende de como queres degustar o osso! Esse osso que pode ser eu, podes ser tu, pode ser um familiar teu ou pode ser o da assuã que compraste, apenas para dar gosto à sopa e depois dar ao teu animal de estimação como oferenda em dia de aniversário.

Cães como eles, só! como eu não quero ser .

Mas que são muito mais do que 100? Lá disso não tenhamos dúvidas!


Nota: Este post vai propositadamente sem imagem

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cartas a Margarida

 

Cara amiga Margarida,

Espero que esta carta a vá encontrar de plena saúde. Já não comunicávamos há algum tempo.

Escrevo-lhe, também, porque me sinto angustiado com toda esta situação política que o nosso país (e o mundo) atravessa, pois sinto-me muito preocupado com os sucessivos ataques de sucessão que têm vindo a lume nas notícias.

Longe vão os tempos das guerras internas que descrevi em “A curva da estrada”. Aliás, fiquei muito feliz por saber que esta minha obra foi objeto de análise no último clube de leitura, promovido pela Biblioteca Municipal de Oliveira de Azeméis, minha terra natal.

Mas sinto que já não faz sentido as guerras entre partidos: já não há “curvas” na estrada: só linhas retas onde se avança sem medo de abalroar os outros, tamanha é a velocidade dos acontecimentos. Certamente, me dirá, cara Margarida, que as grandes conquistas se fizeram quando não se olhou para as “curvas”.

Não sei se é porque ambos sabemos que até nas mais pequenas frinchas pode passar a aranha mais venenosa, urdindo pela calada e no silencio a sua teia mortal até à ferrada final; não sei se porque nos deixamos consumir pelo imediatismo e fácil… O certo é que há um tique-taque universal que nos impele e conduz como arado de ossos, inevitavelmente, para o fim, sem que nos apercebamos do quão rápido o tempo passa e efémera é a vida.

Despeço-me com apreço, não porque não gostasse de continuar a nossa conversa, mas porque tenho de ir ver o forno, que de pré-aquecido, já está em condições de assar uma bela de uma galinha, morta por pessoas menos insensíveis do que eu.

Com afeto,

 

F.C.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Cartas a Margarida

 

Querida amiga Margarida,

Espero que esta carta a vá encontrar bem de saúde.

Escrevo, talvez, a minha última carta deste ano de 2025, onde tanta coisa aconteceu em Portugal e no mundo. Escrevo-lhe já em época natalícia e é com esta época no pensamento que recordo o meu Natal na casa que me viu partir como garoto, para me receber, depois, como homem. Recordo os Natais passados, daquela altura em que tudo — mesmo o mais insignificante dos silêncios — estava e fazia-se sentir para além da pele. O Natal estava no parco repasto, no frágil aquecimento e no negrume agreste do frio cortante do vale encantado de Ossela.

Agora que penso nisso, pergunto-me que sabor havia nas batatas da ceia, criadas na terra e colhidas com o suor da labuta, regadas com as lágrimas de quem sonhava partir para ganhar um pão menos duro. Era um sabor feito de esforço e de partilha, porque até o pouco dividido entre todos se tornava festa. Hoje, quando o fiel amigo com todos chega à mesa sinto comigo esse gosto antigo e percebo que a pobreza tinha outra generosidade: sabia oferecer presença.

Esses pequenos rituais, feitos de coisas simples, eram sinais de cuidado: um gesto sincero de quem quis dar, sem esperar nada que não fosse a alegria do outro. E então o Natal, por mais pobre que fosse em objetos, tornava-se rico em significados.

Hoje tudo se transformou... Quando fecho os olhos, ainda vejo o presépio musguento, o barro das figuras paternais lascado pelo uso, a meia rota pendurada onde, num tempo, a barrita de chocolate cabia com um sorriso tímido. São as caixas embrulhadas que agora se amontoam sob árvores cheias de luzes — presentes comprados com pressa e dispostos com ritual quase industrial. Aguarda-se um mês inteiro para a abertura, e muitas vezes a surpresa foi trocada por listas e encomendas. Parece que a pressa e a abundância fizeram-nos perder a delicadeza do tempo de antes: o tempo de conversar, de ouvir uma história ao pé da lareira, de sentir a casa respirar connosco.

Querida amiga Margarida, partilho uma inquietação nova que nos obriga a pensar: quantas raízes foram arrancadas quando as aldeias ficaram mais vazias? Quantas memórias se perderam quando os mais novos partiram em busca de oportunidades? Quantas novidades chegaram com quem voltou — ou com quem ficou e reinventou a sua vida aqui? E as casas cada vez maiores estão cada vez mais vazias… Num tempo em que se fala tanto em eficiência, tecnologia e números, a verdadeira riqueza continua a ser o gesto que aquece outro corpo humano.

Vivemos tempos de certezas instáveis e de notícias que chegam com força pelo telemóvel. As crises e as mudanças climáticas, a migração, as novas tecnologias; tudo isso muda a paisagem e as formas de viver. Urge reencontrar o sentido do coletivo, a confiança nos vizinhos, o cuidado com a natureza que nos sustenta. aprendemos, por vezes à custa de perdas, que não há futuro social sem memória partilhada e sem comunidades que cuidem umas das outras.

Por isso, este Natal, proponho que voltemos a pequenas práticas: escrever uma carta a um amigo, ajudar num projeto comunitário, levar uma refeição a quem está sozinho. Talvez sejam gestos modestos, mas sei que, nas minhas recordações do vale de Ossela, é que  encontro forças para acreditar que ainda vamos a tempo de olhar para o lado se houver vontade humana de o fazer.

Termino desejando-lhe um Natal sereno, pleno de pequenos encontros e de palavras ditas com carinho. Que a casa que a viu crescer receba calor e risos, e que no novo ano encontremos mais motivos para sorrir, e novas forças para construir pontes de entendimento entre nações.

Com amizade e saudade,

JMFC


domingo, 13 de agosto de 2023

Música para os meus ouvidos

 

Proliferam os festivais de verão por todo o lado e em qualquer terriola mais ou menos provinciana deste Portugal que dedica um orçamento magro (para não dizer vergonhosos) à cultura no país.

Não obstante este parco investimento, todas as gentes tentam fazer alguma coisa que indique que a cultura está viva, que a recomendam e que nela investem, no seu burgo.


Pena que essa pouca cultura se resuma a concertos musicais, com artistas velhos, obsoletos e gastos ou com personagens que ninguém ouve (por opção ou gosto) ou ainda por figuras de pseudo-jovens aos magotes e pinotes em palco, sem qualquer noção do que é a verdadeira arte de fazer música, ou entreter com qualidade: em suma fazer espetáculo.

E junta-se a populaça! Ávida de sair de casa, e em espaços mais ou menos exíguos, batem palmas e vibram, como se jamais tivessem visto outra coisa de melhor.

Em palcos carregados às costas, e descarregados assim que a festaça termina (o tempo urge e há mais palco para andar!) lá sobe o “artista” para dar vida às fanzones, pavilhões, pracetas, largos, ruelas, campos de futebol ou parques de merendas, espalhados um pouco por todos os “becos”, neste país à beira mar plantado.

Faz-se verdadeira rumaria de culto ao “isto é espetáculo”. Durante a época estival em nome das festas populares, tradicionais ou assim-assim-só-porque-sim, lá se juntam, às gerações, momentaneamente, para conviver, quase todos de telemóvel na mão, pois a filmagem para a postagem é mais importante do que a apreciação sensorial que o momento lhes possa trazer.

Só que estoicamente o verão impiedoso acaba. Acaba-se, também o S. Miguel artístico da cultura. Começa o solstício de Inverno e as gentes tão acesas de proatividade exacerbada do “isto sim: é cultura”, recolhem, invernam e caem na modorra do esquecimento da necessidade de mais alimento nessa máquina cultural que verdadeiramente indulta as mentes de questionamento, de reflexão, posicionamento, e dúvida pelo pensamento crítico.

Tudo isto porque no Inverno acabam-se os palcos, acaba-se o orçamento, acaba-se a necessidade do show-off-para-inglês-ver, mas acima de tudo, porque se acaba a vontade do mostrar que se faz algo em prol da cultura.

No fim de tudo vai-se a ver… e mais nada!. A cultura no nosso país é só música para os meus (nossos) ouvidos!